"Katrina, és um monstro nojento"

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"Tu és um monstro nojento" - começa assim a carta de uma menina do Luisiana sobre o furacão Katrina. Um dos muitos documentos que podemos encontrar na exposição inaugurada ontem no Museu da Cidade de Lisboa. Ao lado, dezenas de desenhos de crianças afectadas pela tragédia mostram como estas viram a destruição que o Katrina deixou para trás.

Os desenhos são o resultado de uma terapêutica que ajuda crianças, vítimas de catástrofes naturais, a superar o trauma através da expressão artística. A exposição pretende divulgar o projecto da International Child Art Foundation (ICAF) em Portugal.

A ICAF, uma organização que tem como objectivo estimular a criatividade nas crianças através da arte, desenvolve este programa artístico-terapêutico desde o 11 de Setembro de 2001. Na altura, estudos científicos sobre os efeitos dos ataques ao World Trade Center revelaram que um dos principais problemas das crianças para lidar com a tragédia era a dificuldade em exprimir a sua revolta, dor ou tristeza. Foi assim que surgiu o programa Healing Arts, em que a expressão artística é usada como veículo de comunicação de crianças traumatizadas, que não conseguem, ou não sabem, expressar os sentimentos negativos.

O programa foi posteriormente posto em prática no processo de recuperação de outras crianças afectadas por acontecimentos traumáticos. Em Janeiro do ano passado, a ICAF lançou a mesma iniciativa para ajudar cerca de milhão e meio de crianças na Ásia a ultrapassar distúrbios de stress pós-traumático causados pelo tsunami.

Em Setembro de 2005, a fundação relançou o programa, desta vez nas escolas da região costeira do Golfo do Mississípi, para ajudar as crianças atingidas pelo furacão Katrina. Alguns dos desenhos que resultaram desta iniciativa foram escolhidos para fazer parte da exposição "Crianças do Katrina".

Construir bases para a paz

As 48 obras, de crianças dos oito aos 13 anos, estão dividas pelas três vertentes do programa, desenvolvido com a ajuda de psicólogos e educadores. Numa primeira fase, de resposta inicial, as crianças são incentivadas a exprimir o que sentem sobre a tragédia. Com mais ou menos perícia, com mais ou menos pormenores, os desenhos ilustram a destruição causada pelo furacão, ou o próprio Katrina. Numa outra fase, é pedido às crianças para imaginarem e desenharem um porto seguro, um local onde se sintam felizes.

Outra vertente do projecto consiste em estimular as crianças a mostrarem a sua solidariedade para com os meninos afectados por outras catástrofes naturais. Assim, menos de um mês depois de o furacão atingir o golfo do Mississípi, as crianças foram incentivadas a fazer desenhos para animar os meninos do Paquistão, afectados pelo terremoto que atingiu o país.

A ICAF insiste que a arte pode servir para criar um espírito de comunidade e cooperação nas crianças de todo o mundo, superar barreiras culturais e lançar os alicerces para a paz mundial.

Para Francisco Silva Santos, o director da ICAF em Portugal e um dos organizadores da exposição, este é um dos campos mais importantes no trabalho da fundação. "Apoiar as crianças, através da expressão artística, é um meio privilegiado para conseguir um mundo melhor", afirma.

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